Negativa de cobertura

Doenças Raras: Desafios, Direitos e o Caminho para o Acesso ao Diagnóstico e Tratamento no Brasil

Publicado em Por Matheus Athayde, OAB/BA 42.041
Imagem ilustrativa: Doenças Raras: Desafios, Direitos e o Caminho para o Acesso ao Diagnóstico e Tratamento no Brasil

O Dia Mundial das Doenças Raras, celebrado anualmente em 29 de fevereiro (ou 28 de fevereiro em anos não bissextos), serve como um importante lembrete das complexidades e desafios diários enfrentados por milhões de pessoas que vivem com essas condições. Mais do que uma data no calendário, é um chamado à conscientização sobre a necessidade de políticas públicas eficazes, acesso a diagnósticos precisos e tratamentos adequados, além de alertar sobre os direitos que essa parcela da população possui e que, muitas vezes, são ignorados ou desrespeitados.

A Jornada Complexa: Diagnóstico e Tratamento de Doenças Raras

A jornada de um paciente com uma doença rara é frequentemente marcada por obstáculos que se iniciam logo na fase do diagnóstico. A raridade das condições e a vasta gama de sintomas podem levar a uma verdadeira "odisseia diagnóstica", que atrasa o início do tratamento e pode impactar gravemente a qualidade de vida do paciente.

Principais dificuldades na área

  • Falta de Conhecimento Específico: Muitos profissionais de saúde, dada a baixa incidência de cada doença rara individualmente, podem não ter o conhecimento aprofundado necessário para identificar e manejar essas patologias. Isso gera uma necessidade urgente de investimento em treinamento e capacitação para que esses profissionais possam, no mínimo, levantar a suspeita e encaminhar o paciente a especialistas.

  • Dificuldade de Acesso a Exames Diagnósticos: Após a suspeita, o acesso aos exames específicos para confirmar uma doença rara é um grande entrave. Muitas vezes, esses testes de alta complexidade e custo elevado não estão listados nos Rol de Procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que se torna uma justificativa (falsa) para as operadoras de planos de saúde recusarem a cobertura. É crucial ressaltar que o Rol da ANS deve ser um guia mínimo de coberturas, e sua ausência não deve ser um impeditivo para tratamentos e diagnósticos necessários e cientificamente comprovados.

  • Despreparo na Rede de Atendimento: Tanto na rede pública quanto na privada, o sistema de saúde muitas vezes não está adequadamente preparado para lidar com as particularidades das doenças raras, desde o atendimento inicial até o acompanhamento contínuo e o acesso a terapias inovadoras.

Atualização jurisprudencial

O rol da ANS após o julgamento do STF. Em 18/09/2025, no julgamento da ADI 7.265 (rel. Min. Luís Roberto Barroso), o Supremo Tribunal Federal validou, com interpretação conforme a Constituição, a Lei nº 14.454/2022, que alterou a Lei nº 9.656/98. Hoje, a cobertura de tratamento fora do rol depende de cinco requisitos cumulativos: (i) prescrição por médico ou odontólogo habilitado; (ii) inexistência de negativa expressa da ANS ou de proposta de atualização do rol pendente de análise; (iii) ausência de alternativa terapêutica adequada no rol; (iv) comprovação de eficácia e segurança com base em medicina baseada em evidências de alto nível; e (v) registro na Anvisa. É com base nesses critérios que a negativa da operadora deve ser examinada no caso concreto (ConJur).

Essas barreiras resultam em atrasos significativos no diagnóstico, progressão da doença, e, infelizmente, em casos mais graves, riscos de óbito. É fundamental que pacientes e suas famílias compreendam seus direitos para buscar o cuidado especializado e de alta qualidade que merecem, visando a melhoria da qualidade de vida e a redução da progressão da doença.

Doenças Raras no Contexto Brasileiro: Políticas e Desafios

O Brasil tem avançado em algumas frentes para garantir o acesso ao cuidado para pessoas com doenças raras. Em 2014, o Ministério da Saúde publicou a Portaria 199, que estabeleceu a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras no SUS. Essa política visa:

  • Garantir a universalidade, integralidade e equidade das ações e serviços de saúde.

  • Reduzir a morbidade e mortalidade associadas a essas condições.

  • Estabelecer diretrizes para o cuidado em todos os níveis de atenção do SUS.

  • Assegurar o acesso a meios diagnósticos e terapêuticos disponíveis.

  • Qualificar o cuidado oferecido aos pacientes.

A Portaria 199 contribuiu para a acreditação de instituições de referência e para a incorporação de novos testes diagnósticos no SUS. No entanto, o cenário ainda apresenta grandes desafios. Existem projetos de lei, como o PL 1606/11, que buscam expandir o acesso a tratamentos para pacientes raros, mas seu trâmite é lento no Congresso.

A dimensão do desafio é gigantesca: estima-se que existam 13 milhões de brasileiros vivendo com alguma doença rara. Esse número é superior à população de grandes capitais como São Paulo.

Desafios no setor privado (planos de saúde)

  • Ausência de Cobertura no Rol da ANS: A principal dificuldade continua sendo a falta de medicamentos, testes, procedimentos e outras terapias essenciais para o diagnóstico e tratamento das doenças raras no Rol da ANS.

  • Alto Custo: O elevado custo desses serviços e medicamentos especializados é uma das maiores razões para as operadoras de planos de saúde negarem a cobertura.

  • Falta de Incentivos à Pesquisa: O cenário de pesquisa clínica no Brasil também não é favorável, com burocracia e demora na aprovação de protocolos de pesquisa, dificultando o desenvolvimento de terapias inovadoras.

Em ambos os sistemas, público e privado, a via judicial muitas vezes se torna a principal alternativa para pacientes e suas famílias buscarem o acesso aos tratamentos e diagnósticos necessários.

O Papel Fundamental dos Exames Diagnósticos e da Triagem Neonatal

A detecção precoce é crucial para o manejo eficaz das doenças raras. O cuidado pré-natal é uma ferramenta importante para identificar precocemente a presença de patologias. Após o nascimento, a realização do Teste do Pezinho é a principal indicação para detectar algumas alterações e patologias importantes. No entanto, é fundamental expandir o alcance da triagem neonatal. Atualmente, a triagem obrigatória por portaria federal abrange apenas algumas doenças raras. É urgente que essa triagem seja ampliada para dar a todos os nascidos vivos no território nacional a oportunidade de um diagnóstico precoce, independentemente de sua condição financeira.

Considerando que grande parte das doenças raras possui causas genéticas, exames específicos são extremamente úteis para um diagnóstico preciso:

  • Análise de Cariótipo com Banda G: Realizado a partir de uma coleta de sangue periférico e cultura de células para análise cromossômica.

  • Sequenciamento de Genes Únicos: Requer uma amostra de sangue periférico, extração de DNA, amplificação de cada exon do gene por PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) e reação de sequenciamento.

  • Sequenciamento Completo do Exoma: Um exame mais abrangente que sequencia todas as regiões codificadoras de proteínas do genoma.

A importância de investir na formação de profissionais de saúde e no apoio a novos estudos e pesquisas focados em doenças raras é um clamor constante de associações de pacientes e profissionais da área. É necessário não apenas garantir o acesso a tudo que existe, mas sim ao que é essencial para a qualidade de vida e a saúde desses pacientes.

Garantindo Seus Direitos: O Caminho Legal para o Acesso

Diante das dificuldades no diagnóstico e acesso a tratamentos para doenças raras, a via judicial frequentemente se torna a única alternativa para garantir os direitos do paciente. É fundamental que a família esteja preparada para buscar seus direitos e exigir a cobertura dos procedimentos e medicamentos necessários.

Se você ou alguém que você conhece está enfrentando dificuldades para obter o diagnóstico ou o tratamento para uma doença rara, não se sinta desamparado. A lei e a justiça estão ao seu lado. É essencial buscar a orientação de um profissional do Direito especializado em saúde. Este especialista poderá analisar seu caso, reunir a documentação necessária (como relatórios médicos detalhados e negativas de cobertura por escrito) e ingressar com as medidas judiciais cabíveis, incluindo pedidos de liminar para garantir o acesso urgente ao que é necessário.

O objetivo é assegurar que, independentemente da raridade da condição, todos os pacientes tenham o direito a um diagnóstico preciso e ao tratamento adequado, com o suporte necessário para enfrentar os desafios e ter uma melhor qualidade de vida. Sua saúde e a de seus entes queridos são prioridades inquestionáveis. Nossos profissionais estão preparados para oferecer a você a assessoria jurídica especializada necessária para garantir que seus direitos sejam respeitados e que o acesso ao diagnóstico e tratamento de doenças raras seja uma realidade. Não hesite em nos contatar para entender como podemos auxiliá-lo nessa jornada.

MA
Matheus Athayde de SouzaAdvogado · OAB/BA 42.041 · OAB/SP 551.753

Fundador do escritório Matheus Athayde Advocacia, com atuação em Direito da Saúde e na judicialização de planos de saúde.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu contrato e dos seus documentos por um advogado.

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