
A Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) é uma doença rara, crônica e progressiva, caracterizada pela elevação da pressão nas artérias pulmonares. Essa condição leva a um aumento da resistência ao fluxo sanguíneo nos pulmões, sobrecarregando o lado direito do coração e, se não tratada, pode resultar em insuficiência cardíaca e óbito. Para os pacientes que enfrentam essa enfermidade debilitante, o acesso a tratamentos eficazes que melhorem a qualidade de vida e prolonguem a sobrevida é crucial. Entre as terapias mais inovadoras e eficazes, destaca-se o Selexipague (comercializado sob o nome Uptravi®), um medicamento oral que tem revolucionado o manejo da HAP.
O rol da ANS após o julgamento do STF. Em 18/09/2025, no julgamento da ADI 7.265 (rel. Min. Luís Roberto Barroso), o Supremo Tribunal Federal validou, com interpretação conforme a Constituição, a Lei nº 14.454/2022, que alterou a Lei nº 9.656/98. Hoje, a cobertura de tratamento fora do rol depende de cinco requisitos cumulativos: (i) prescrição por médico ou odontólogo habilitado; (ii) inexistência de negativa expressa da ANS ou de proposta de atualização do rol pendente de análise; (iii) ausência de alternativa terapêutica adequada no rol; (iv) comprovação de eficácia e segurança com base em medicina baseada em evidências de alto nível; e (v) registro na Anvisa. É com base nesses critérios que a negativa da operadora deve ser examinada no caso concreto (ConJur).
No entanto, a jornada para acessar o Selexipague frequentemente é marcada por um obstáculo significativo: a negativa de cobertura por parte dos planos de saúde. Essa recusa, muitas vezes justificada pelo alto custo do medicamento, que pode girar em torno de R$ 20.000,00 por uma caixa com 60 comprimidos, é uma prática abusiva e ilegal. É fundamental que os pacientes e suas famílias saibam que possuem o direito de receber o Selexipague, e que a Justiça tem reiterado esse entendimento.
A Hipertensão Arterial Pulmonar e a Ação do Selexipague
A Hipertensão Arterial Pulmonar pode ser idiopática (sem causa conhecida), hereditária, ou associada a outras condições, como doenças do tecido conjuntivo ou HIV. Independentemente da causa, a doença é caracterizada por uma remodelação das pequenas artérias pulmonares, que se tornam mais espessas e estreitas, dificultando a passagem do sangue e aumentando a pressão. Isso leva a sintomas como falta de ar, fadiga, dor no peito e inchaço nas pernas, que se agravam com a progressão da doença.
O tratamento da HAP tem como objetivo principal reduzir a pressão nas artérias pulmonares, aliviar os sintomas, melhorar a capacidade de exercício e prolongar a vida. Para isso, são utilizadas diversas classes de medicamentos que atuam em diferentes vias biológicas. O Selexipague representa um avanço nessa área por ser um agonista seletivo do receptor de prostaciclina (IP). A prostaciclina é uma substância produzida naturalmente pelo corpo que tem a função de dilatar os vasos sanguíneos (vasodilatação) e inibir a agregação plaquetária.
O Selexipague age mimetizando a ação da prostaciclina, estimulando diretamente seus receptores. Ao fazer isso, ele promove a vasodilatação nas artérias pulmonares, o que reduz a pressão arterial pulmonar e melhora o fluxo sanguíneo para os pulmões. Além disso, o Selexipague também possui propriedades anti-proliferativas, ajudando a prevenir a remodelação e o estreitamento dos vasos. Essa ação dupla é crucial para o manejo eficaz da HAP, especialmente em pacientes que precisam de uma terapia mais robusta para controlar a progressão da doença e melhorar seus resultados clínicos. A administração é oral, geralmente duas vezes ao dia, o que facilita a adesão ao tratamento contínuo.
A Obrigatoriedade da Cobertura pelos Planos de Saúde
A negativa de cobertura do Selexipague pelos planos de saúde é uma realidade frustrante para muitos pacientes com HAP. As alegações mais comuns são o alto custo do medicamento e a sua ausência no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Contudo, ambos os argumentos são, na grande maioria das vezes, considerados inconsistentes com a legislação vigente e o entendimento dos tribunais brasileiros.
O Selexipague possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse registro é o atestado de que o medicamento passou por rigorosos testes de segurança, qualidade e eficácia, e que é aprovado para uso no Brasil para o tratamento da Hipertensão Arterial Pulmonar. A Lei nº 9.656/98, conhecida como Lei dos Planos de Saúde, e a jurisprudência consolidada no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e em outros tribunais, são claras: o Rol da ANS é uma lista exemplificativa de coberturas mínimas obrigatórias, e não uma lista taxativa que restrinja o acesso a tratamentos essenciais que possuem registro na Anvisa e são prescritos pelo médico assistente.
A decisão sobre qual medicamento é o mais adequado para o tratamento de uma doença grave como a HAP cabe ao médico especialista que acompanha o paciente, não à operadora de saúde. Se o pneumologista, cardiologista ou especialista em HAP, com base no quadro clínico do paciente e nas evidências científicas, prescreve o Selexipague como a melhor e mais eficaz opção para o controle da doença, o plano de saúde tem o dever de fornecê-lo. A recusa, nesses casos, configura uma prática abusiva e ilegal, pois limita o direito à saúde e à vida do beneficiário. A função social dos planos de saúde é garantir a assistência, e não criar barreiras financeiras para tratamentos que são vitais.
Revertendo a Negativa e Garantindo o Acesso ao Tratamento
Receber a negativa de cobertura para o Selexipague pode ser um momento de grande angústia para o paciente e sua família. No entanto, é fundamental saber que essa decisão pode ser revertida e que existem passos eficazes para garantir o acesso ao tratamento:
Solicite a Negativa por Escrito: O primeiro passo indispensável é exigir que o plano de saúde formalize a recusa de cobertura por escrito, especificando detalhadamente os motivos da não liberação. Este documento é uma prova crucial para todas as etapas seguintes e deve ser solicitado de imediato.
Obtenha um Relatório Médico Detalhado e Completo: Peça ao médico responsável pelo tratamento um relatório robusto. Este relatório deve conter:
O diagnóstico de Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP), com o tipo e a gravidade.
A justificativa clara para a indicação do Selexipague, explicando por que este é o tratamento mais adequado (e por que outras opções não foram eficazes ou bem toleradas).
A menção de que o medicamento possui registro na Anvisa para essa indicação.
A urgência e a necessidade do tratamento para o controle da doença, a melhora dos sintomas e da qualidade de vida, e a prevenção de complicações graves.
Se possível, referências a estudos clínicos ou diretrizes que corroborem a indicação.
Ação Judicial com Pedido de Liminar: A via judicial é, na grande maioria dos casos, a mais eficaz e rápida para garantir a cobertura do Selexipague. Com a negativa por escrito e o relatório médico detalhado, um advogado especializado em Direito da Saúde pode ingressar com uma ação judicial, solicitando um pedido de liminar. A liminar é uma decisão provisória da justiça que, se concedida, obriga o plano de saúde a fornecer o medicamento imediatamente, mesmo antes do julgamento final do processo. Dada a natureza crônica e progressiva da HAP, a agilidade na obtenção da liminar é fundamental para evitar o agravamento da doença e garantir a continuidade do tratamento.
Não Desista: Seu Direito ao Tratamento é Inegociável
Viver com Hipertensão Arterial Pulmonar já é um desafio que exige acompanhamento constante e tratamentos complexos. A dificuldade em acessar um medicamento tão importante como o Selexipague, devido a negativas indevidas do plano de saúde, adiciona um peso desnecessário e injusto à vida do paciente. O direito à saúde e à vida são bens maiores que devem prevalecer sobre interesses econômicos.
Se o seu plano de saúde negou a cobertura do Selexipague, saiba que essa negativa é, muito provavelmente, ilegal. Não se deixe intimidar pelo alto custo do medicamento ou pela burocracia. A legislação brasileira e a jurisprudência estão ao lado do paciente.
Buscar a orientação de um advogado especialista em Direito da Saúde é um passo decisivo. Esse profissional poderá analisar seu caso em detalhes, preparar a documentação necessária e conduzir o processo judicial para garantir que seu plano de saúde cumpra sua obrigação. Lembre-se, o seu direito a um tratamento adequado e digno é inegociável e deve ser prontamente garantido. Não hesite em lutar por ele.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu contrato e dos seus documentos por um advogado.